Jogo Livre

Jogo Livre

A crise moral que flagela o país não se cinge ao “mensalão” e ao “petrolão”, tão exuberantemente prolíficos aos comentários da mídia. A corrupção parece institucionalizada nas instâncias superiores da República. A própria presidente enfrenta processo de “impeachment” no Congresso, acusada de descaminho das contas públicas, para proveito político próprio e do seu partido. Os presidentes da Câmara e do Senado são investigados pelo envolvimento na operação Lava-Jato. E há suspeitas até no Supremo Tribunal Federal.

A sociedade mergulhou em um turbilhão sem fim, que enseja fatos novos a todo o instante. A degradação pode ser mensurada por indicadores estatísticos. O índice nacional de 60 mil homicídios do anuário do Ministério da Justiça supera o número de baixas em combate da guerra da Síria.

Como se não bastasse a violência de cada dia, merecedora de toda sorte de precaução, surge, agora, o projeto de legalização do jogo no Brasil. A proposta tramita no Congresso com velocidade espantosa. Nesta semana, já foi aprovada por uma comissão especial do Senado e deve ser votada antes do final do ano.

Patrocinado por lobistas de grandes grupos internacionais, o projeto surfa em um momento de grave crise fiscal, tendo como argumentos o aumento da arrecadação, a criação de empregos e o incremento do turismo. Porém, omite as inevitáveis conexões com o crime organizado, que financia campanhas políticas milionárias.

No Brasil atual, há uma cultura de leniência e uma legislação permissiva que produzem impunidade e dificultam a repressão policial. Liberado o jogo, abre-se uma porta para o ingresso no país de organizações criminosas como o cartel de Sinaloa, cuja crueldade rivaliza com o Estado Islâmico, e outras máfias internacionais que já operam no México e na Argentina.

A rapidez legislativa da proposição não deixa espaço para o amadurecimento da questão. Em nenhum momento, os parlamentares se lembraram do alerta de Gustavo Sierra, em seu livro Sinaloa-Medellin-Rosário, sobre o perigo das máfias de Pilar e Sinaloa.

É sintomática a coincidência do projeto com as discussões do “impeachment” e o processo do deputado Eduardo Cunha no Conselho de Ética.

Na verdade, há muito mais políticos e siglas que, também, merecem ser inseridos no jargão: “Fora Dilma – fora PT!”.