Rock total e fome geral

Rock total e fome geral

O secretário Beltrame pergunta como podem jovens pobres ir à praia sem dinheiro e sem documentos. Em que mundo vive esse homem público? Ele sabe qual o valor do salário mínimo com que vive 70% do povo brasileiro? O brasileiro consegue o milagre de viver com 1,10 reais por hora, logo não deve sobrar dinheiro para ir à praia. Aliás, eu nunca levei dinheiro nem documento para a praia que frequento, e acho que os surfistas que praticam esse saudável esporte na orla do Rio também não.

Diante desse raciocínio do Chefe da Policia, acho que tenho que mudar meus hábitos porque corro o risco de ser preso por sua policia por andar sem dinheiro no bolso. Ouvi um comentário de um “amigo” do face book que minha posição contrária a esse arrastão fascista promovido pela policia do Senhor Beltrame se deve a uma possível vontade de ingressar na política. Essa acusação corresponde à insinuação de que jovens sem dinheiro no bolso teriam a intenção de roubar quem tem muito dinheiro.

Uma é tão infame contra a outra. Pensar que todos se posicionam publicamente por interesses pessoais faz parte da cultura egoísta de quem pensa que a praia, esse bem público tão maltratado por seus usuários, pertence apenas aos moradores da orla, e, portanto os da periferia não teriam direito ao banho de mar. Em tempos de respeito ao meio ambiente, melhor faríamos se buscássemos a união para melhor tratar esse campo de lazer comum e não jogássemos tantos dejetos para Iemanjá, sujando a água e tornando impuro o mar que tanto apreciamos e cantamos.

Temos nos confraternizado respeitosamente em momentos inesquecíveis quando nos reunimos no mar, democraticamente para saudar o ano novo, para rezar na Jornada da Juventude, para cantar em grandes eventos musicais. Por que será que não conseguimos a mesma confraternização na partilha dessas areias que a natureza nos brinda para o lazer e a louvação de uma natureza tão pródiga. O que nos falta para sermos mais tolerantes? Por que teremos que viver sempre nesse mundo tão desigual, onde de um lado temos o rock e o carnaval e do outro a fome total?