Quem tem medo da Polícia Federal?

Quem tem medo da Polícia Federal?

Quando se fala em Polícia Federal, a temida PF, surge a ideia de truculência e abuso de autoridade, em razão de seus agentes não se submeterem a “blindagem” dos cargos e do poder econômico dos investigados. Mas, polícia judiciária que é na área da Justiça Federal e das Cortes Superiores, ela cumpre seu papel de investigar a fundo, sem sofrer interferências externas que venham desviá-la de seu objetivo. E um exemplo eloquente é a decantada “Operação Lava-Jato”, que vem engasgando os grandes do poder, e, não obstante a grita e as pressões dos petistas de alto coturno, segue impávida, na filosofia do “doa a quem doer”. Só deve ter tem medo quem deve.

Apesar das naturais acusações de abusos da PF feitas por investiga­dos e principalmente presos, os benefícios são evidentes: desbaratar ações crimino­sas que atrapalham o cotidiano dos brasileiros. Isto fica mais claro quando são re­velados e interrompidos esquemas como tráfico de drogas e contrabando, “propinodutos” e outros fatos que trazem prejuízo para o país. Também quando são mostradas as relações espú­rias entre ações ilícitas e servidores públicos – sejam eles políticos, policiais ou membros do Judiciário. A corrupção é um câncer que prejudica o desempenho dos órgãos públicos e se coloca como um entrave ao desenvolvimento nacional.

Para dar um exemplo da sua eficiência, a morte do policial federal Wilton Tapajós, em julho de 2012, num cemitério de Brasília, foi solucionada em tempo recorde: PF resolveu tudo (apurou, descobriu, prendeu, localizou o carro da vítima na Bahia e a arma do crime em Goiás), em menos de um mês, apesar de estar em curso uma greve de agentes, escrivães e papiloscopistas. Isto, porque o órgão age usando refinada técnica e precedida de um serviço de inteligência muito moderno, apesar da franciscana pobreza, com a falta de recursos e de efetivo (só conta, em todo o País, com 13 mil homens entre delegados, agentes, escrivães, papiloscopistas etc, e para quase 9 mil quilômetros de litoral, a PF dispõe de cerca de 150 homens. Na fronteira terrestre, o contingente não chega a 1.500). Isto nos deixa surpresos com sua eficiência, e não raro ensaiam uma greve, mas parece que o sentimento do dever aborta o movimento.

E seu pessoal paga pesado tributo: em entrevista ao Blog do Cláudio Tognolli em 13/06/2014, Luis Boudens, da Federação Nacional dos Policiais Federais  (Fenapef), disparou números catastróficos jamais vistos: nos anos 2011/2013 ocorreram na PF 29 mortes: 13 delas por suicídio (dois meses depois da entrevista já se registrava o 15º) e 6 por acidente de automóvel, face a pressões e assédio moral sofridos pelos policiais. Segundo sindicalistas, “o comportamento da direção da PF tem provocado e agravado diversos problemas entre os policiais”, incluindo problemas psicológicos e psiquiátricos. Pesquisa da Federação Nacional da PF em 2013 mostrou que 30% dos policiais já haviam se submetido a algum tipo de tratamento psicológico.

Uma das características da PF é o desencadear das chamadas “operações”: Durante os anos de 2003 a 2008, por exemplo, ela realizou nada menos que 568 operações (9 em 2003, 49 em 2004, 67 em 2005, 167 em 2006, 188 em  2007, e em  2008,  235 operações), todas elas batizadas com os mais diversos nomes, alguns inusitados, como “Tempestade no Oeste “, “Feliz Ano Velho”,“Poeira no Asfalto”, “Mar Azul“Cavalo de Aço”, “ Saia Justa”, “Big Brother”, “Guabiru”, “Anjo da Guarda”, “Caá-Ete”, “Bye Bye Brasil”,“Ilha da Fantasia”, Boneco de Pano”, “Casa Velha”Amigos da Onça”, “Telhado de Vidro”, “Cobra D’Água”, e assim por diante. Depois de 2008, com a crescente corrupção, multiplicaram-se  as operações, mas a Polícia Federal sempre manteve seu padrão de imparcialidade em todas elas.

Os nomes das operações são escolhidos por seus delegados. As denomi­nações devem fazer alguma referência ao caso estudado e, simultaneamente, man­ter o assunto em sigilo. A “Operação Isaías”, por exemplo, sobre extração ilegal de madeira, era uma referência ao seguinte texto do profeta bíblico: “Restarão tão poucas árvores em sua floresta, que um menino poderá contá-las” (Isaías, 10:19). Já a Têmis, sobre o envolvimento de membros do Judiciário em crimes, usou o nome da deusa grega da Justiça.

Para manter seu padrão, dezenas e até centenas de agentes são mobilizados em tais operações. Só na “Operação Têmis”, por exemplo, cerca de 300 profissionais cum­priram 70 mandados de busca e apreensão num só dia; no caso da “Operação Hurri­cane”, foram 400 agentes. Essa, porém, é só a face visível da atividade da PF: por trás dela, outras dezenas de agentes atuam nas áreas de inteligência e investigação, numa impecável logística.

Nem sempre as operações resultam em prisões. Muitas vezes, elas vi­sam apenas obter provas que podem cooperar com as investigações. Isso impede, por exemplo, que os suspeitos se adiantem aos longos inquéritos e destruam pro­vas. De qualquer forma, tanto as prisões quanto a apreensão de provas dependem de autorização da Justiça. O que nos desanima é que quando os inquéritos chegam à Justiça por lá morrem, com raras exceções.

Legalmente, as ações dos agentes federais têm de ser autorizadas pela Justiça. Isso serve tanto para os mandados de busca e apreensão de provas quanto para as prisões. O mesmo vale para a realização das escutas telefônicas – tão úteis nesses processos. Sendo autorizadas pela Justiça, as operações são legais. Nunca se viu uma ser realizada sem o respaldo do Judiciário.

Para evitar o uso de exploração de prestígio, a PF não rea­liza operações com agentes do próprio Estado onde são feitas, pois não co­nhecem ninguém e não podem ser influenciados pelo indefectível “você não sabe com quem está falando”.

Diante da oceânica corrupção que assola o país, esses policiais são verdadeiros heróis, e ninguém precisa ter medo. E digo-o com conhecimento de causa, pois também fui investigado, sofri busca e apreensão e monitoramento e não tenho queixas do comportamento da Polícia Federal, que apenas cumpre ordens. Evidente que há exceções, mas o delegado Edivaldo Waldemar Gênova, que comandou a busca em minha casa, foi mais polido que muitos que dizem meus amigos.

Mas não posso dizer o mesmo da Justiça, infelizmente.

Artigo originalmente publicado no “Diário da Manhã” de 04/03/2015