Pelo fim do jeitinho brasileiro

Pelo fim do jeitinho brasileiro

Em 1937, Sérgio Buarque de Holanda, escreveu o seu livro RAIZES DO BRASIL, de natureza sociológica e psicológica, mas com um objetivo político, ou seja, olhando para o passado prever o nosso futuro. Ele demonstra que a “ cordialidade do homem brasileiro” é herança da colonização portuguesa, de uma estrutura política, econômica e social completamente instável de famílias patriarcais e escravagistas;  a nobreza portuguesa era muito flexível, em relação á feudal não ibérica; isto é, mentalidade moderna, onde havia igualdade entre homens; o domínio do patriarca no âmbito da sociedade; o desprezo pelo trabalho braçal, físico, que não dignificava o homem, mas sim o trabalho intelectual.

O sentimento de nobreza e a aversão ao trabalho físico saem da Casa Grande e invadem a cidades, razão pela qual as cidades se desenvolveram de forma anormal. Portugal sempre admitiu a flexibilização social e havia desejo da burguesia se tornar parte da nobreza.

Sérgio Buarque de Holanda destaca que o Estado não é uma continuidade da família mas até hoje(1937) vemos uma dificuldade entre homens detentores de posições públicas conseguirem distinguir entre o público e privado, onde todos são amigos em todos os lugares. O Brasil é uma sociedade onde o Estado é apropriado pela família, os homens públicos são formados no círculo doméstico, onde os laços sentimentais são transportados para o ambiente do Estado. Ademais, os grandes movimentos sociais e políticos vinham de cima para baixo. O povo sempre ficou indiferente a tudo. O romantismo acabou se tornando um mundo fora do mundo, incapaz de ver a realidade.

Destaco dois pontos importantes:

a)a  mistura entre o publico e o privado(interesse de classes dominantes);

  1. b) os grandes movimentos sociais e políticos vêm de cima para baixo.

Observa-se que muitos anos transcorreram e a perspectiva não mudou.

Hoje, os dois maiores problemas nacionais são (a) a criminalidade (83%) e (b) a corrupção (78%).

Na verdade, há uma permissividade do povo brasileiro, porque a corrupção faz parte de nossa cultura! O não cumprimento das leis não causa constrangimento. Aliás, sob a ótica do principio da igualdade é unânime.

No entanto, todos se sentem desiguais ( sociais e legalmente), valendo para as elites, que se julgam isentos de se submeterem às normas, mas que as criam para as subverter, como para as classes populares, que não conseguem fazer valer seus direitos e nem cumprem as normas ( a pobreza os desobriga), a não ser que  esse descumprimento venha a ameaçar a ordem(violência).

No meio campo, fica a classe média que se conforma com burlas variadas, como fraudar a declaração de impostos de renda, descumprir as normas de trânsito, praticar pequenos ilícitos, corromper agentes estatais de baixa burocracia etc.

Ressalve-se, a corrupção não é um problema brasileiro isolado. É preocupação mundial. DESCUMPRIMENTO DA LEI.

A estrutura de Poder não é uma abstração, pois se materializa em situações objetivas de posse de riqueza, se reproduz e se consolida graças a redes políticas, sociais e de parentesco, principalmente no âmbito municipal e se amplia a nível Estadual e Nacional.

As redes políticas de poder são definidas como conexões de interesses, envolvendo, basicamente, empresários e cargos políticos no aparelho de Estado, no EXCECUTIVO, LEGISLATIVO E NO JUDICIÁRIO, e também em outros espaços de poder, buscando assegurar vantagens e privilégios para os participantes.

Além da IDEOLOGIA que lhe reforça a legitimidade, as redes podem utilizar artifícios tais como o NEPOTISMO, O CLIENTELISMO E A CORRUPÇÃO. É uma rede de relações familiares, de parentesco e de privilégios há mais de 300 anos ( ver genealogia de famílias que detém o poder).

Da banalização: banalização significa que estamos acostumados a este tipo de comportamento, ou seja, algo trivial, corriqueiro, vulgar. A sociedade convive com a corrupção como se fosse comum a qualquer ambiente social. A corrupção invadiu o nosso existir, desde o pequeno comerciante, passando por profissionais liberais, até altos escalões da sociedade civil e dos governos, dominados por práticas corrosivas.

As pessoas se acostumam com esses comportamentos e não tem mais indignação. Quer dizer, não aceitar, criticar, rechaçar, questionar. A atitude de indignação se dá por meio de uma educação moral consistente. A corrosão moral que assola o nosso País deve ser um desafio para todas as instituições educativas, formais ou não ( família, escola, universidade, ONGs, parlamentos e outros espaços democráticos).

O Brasil vive uma crise de agentes ( pai, mãe, professor, padre, pastor, político, médico, advogados, empresários etc) e das instituições morais ( família, escola, Igreja, ONGs etc), tornando-se mais difícil a educação moral.

E o Jeitinho brasileiro? O tal jeitinho brasileiro tem sido invadido por expressões como “ rouba mas faz”, “ rouba mas divide” e tantas outras. Nota-se que ocorre verdadeira inversão de valores, ou seja, naquele comportamento que está ocorrendo uma inversão de valores, ou seja, aquele comportamento que deveria ser rechaçado pela sociedade como algo negativo tem sido elogiado e até defendido.

O jeitinho brasileiro identifica-se de maneiras distintas: a) como uma maneira de resolver problemas que vão ao encontro de alguma norma, proibição ou lei; b) como uma dificuldade das pessoas de se verem como iguais perante as leis e  © como um ato próximo à corrupção, revelando a malandragem social do brasileiro.

Malefícios do jeitinho brasileiro: (a) o benefício do jeitinho solucionar impasses legais administrativos, a um custo relativamente baixo, consolida-o como instituição permanente em um universo legal bastante conturbado; (b) obstáculo para o desenvolvimento do País a longo prazo, pois, do ponto de vista econômico, provoca a má alocação de recursos, aumento de custos da produção, má qualidade do produto e do serviço e injustiça social, além de prejuízo moral para a sociedade; (c) é praticado por todas as classes sociais; (d) a burla da regra ou da norma para solucionar uma dificuldade, pode se aproximar tanto da corrupção, quanto do favor, decorrentes de uma burocracia (rigida e formalista).

Conclusão: O Jeitinho brasileiro define importante aspecto da identidade nacional, pois quando designamos uma determinada ação como jeitinho brasileiro estamos  anulando toda a diversidade étnica, cultural, de classes, dentre outras, no interior da sociedade brasileira, e adotando uma classificação homogênea definidora dos milhões de brasileiros.