Roberto Jefferson, de bandido a herói

Roberto Jefferson, de bandido a herói

Passados mais de dois anos do julgamento do “mensalão”, primeiro dos escândalos incubados no seio do governo petista, estive relendo o artigo “O plano perfeito”, que o jornalista Nelson Motta publicou na edição de 05/10/2012 do jornal “O Estado de São Paulo”. Diz ele que ficou provado que – se não fosse a captura dos bandidos do “mensalão” – o PT teria a maior e mais fiel base de apoio do Ocidente, maior até que a da velha Arena de Sarney, quando, além das benesses e sinecuras (as famosas “boquinhas”), os partidos aliados teriam suas despesas bancadas pelo PT. Em vez de coalizão, haveria um verdadeiro rolo compressor,  a “democracia” sonhada por Lula e Dirceu.

De onde viria o dinheiro para as campanhas? A voracidade dos políticos da base aliada não se contentaria com os empréstimos de araque de Marcos Valério no Banco Rural e no BMG e do desvio da grana do Visanet, pois os aliados quanto mais comem mais fome tem.

Os petistas empoleirados nos postos-chave do governo facilitariam licitações e superfaturariam campanhas publicitárias. Lula e Zé Dirceu, macacos velhos na picaretagem, sabiam, mais que ninguém, que havia pelo menos 300 picaretas à venda no Congresso, perfeitamente “compráveis” para servir ao governo do primeiro operário a chegar à Presidência, para fazer aquelas mesmas ‘reformas de base” que derrubaram Jango em 1964. O plano era perfeito, se não aparecesse em cena um certo Roberto Jefferson, que ameaçou o então ministro chefe da Casa Civil de Lula e soltou tantas cobras e lagartos, que não restou a Dirceu outra alternativa senão sair do cenário político, não sem amargar uma condenação no Supremo.

E circula nas redes sociais sugestiva lembrança: “Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu, o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico”

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefe da Casa Civil, ou presidente da Petrobrás. Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos
braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: “Dirceu guerreiro/do povo brasileiro”.

A Jefferson também devemos a criação do termo “mensalão”. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de “mensaleiro”, que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos. O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo?

Mas, sem mesmo citarmos qualquer motivação política, a explosão daquele escândalo do Brasil moderno foi fruto de um confronto pessoal entre Jefferson e Dirceu, uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. O “chefe” sempre foi José Dirceu. Combativo, inteligente, fluente em vários idiomas, treinado em Cuba e na antiga União Soviética, entre outras coisas. E com uma fé cega em implantar a “Ditadura do Proletariado” de inspiração cubana. Para isso usou e abusou de várias pessoas e, a mais importante – pelos resultados alcançados – era Lula: ignorante, iletrado, desonesto, sem ideais, mas um grande manipulador de pessoas, era o joguete ideal para o inspirado José Dirceu.

Lula não tinha caráter nem ética, e até contava, entre risos, que sua família só comia carne quando seu irmão “roubava” mortadela no mercado onde trabalhava. Ou seja, o padrão ético era frágil. E ele, o Dirceu, que fizera tudo direitinho, estava na hora de colher os frutos e implantar seu sonho no país. Aí surgiu Roberto Jefferson. E acabou por fazer um enorme bem para o Brasil.

Os quadros do PT não tinham um só elemento capaz de sustentar o partido no poder. Graças a Deus, com a expurgação de Zé Dirceu, banido pela Justiça do cenário político, Lula teve a ideia de patrocinar a candidatura de Dilma Rousseff, que não conseguirá manter-se, pois não tem o “jogo de cintura” de Dirceu. Mas Lula diz que Dilma sabe governar, e governa com os pés no chão. Todos os quatro.

Imaginem se fosse o Zé Dirceu no lugar dela!… Certamente nunca iria permitir-nos apear o PT do poder.

 

(Artigo originalmente publicado no “Diário da Manhã” de 24/07/2015)