O perigoso alfabeto da recessão

O perigoso alfabeto da recessão

Inicialmente, desejamos definir recessão, na ampla concepção do Prof. Mário Henrique Simonsen, morto em 1997 – o maior economista dentre todos os engenheiros brasileiros. – “É uma fase de contração no ciclo econômico, isto é, de retração geral na atividade econômica por um certo período de tempo, com queda no nível da produção, aumento do desemprego, queda na renda familiar, redução da taxa de lucro, aumento do número de falências e concordatas, aumento da capacidade ociosa e queda do nível de investimentos”.

A recessão técnica instalou-se drasticamente na economia brasileira. Uma retração de dois trimestres consecutivos neste ano carimba nosso passaporte para o “purgatório”. O PIB (Produto Interno Bruto) de acordo com IBC-Br (Banco Central), a queda, de abril a junho, foi de 1,9% sobre o trimestre anterior, e de 2,5% no primeiro semestre. As projeções oficiais para ele são feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísca), cuja variação no segundo trimestre está prevista para ser conhecida oficialmente no próximo dia 28.08.15, coincidem com os números do indicador do Banco Central e ficam em torno de um queda de 2% sobre primeiro trimestre em que a variação foi 0,2% negativa.

Neste segundo semestre, a indomável crise política arremessou-nos ao inevitável campo negativo, nosso verdadeiro lugar. Neste momento, encaramos uma dolorosa recessão que poderá vir a ser a mais extensa da nossa biografia econômica.

Por conseguinte, o processo de recuperação deverá ser também mais prolongado. Intensificado pela turbulência fiscal, intranquilidade política, governo integralmente fragilizado, confiança de empresários e consumidores nos menores patamares da história e diante de um mundo nada sedutor, a economia brasileira entrou nela para ficar um bom tempo. Conjuminando com o Prof. Delfim Netto (ex-neo petista) – “uma tempestade perfeita”.

As últimas projeções realizadas no Brasil sinalizam uma retração preocupante, em torno de 2,01% para 2015 e 0,15 % para o próximo ano, ambas, literalmente, na contramão da tendência mundial, o que levou há dias atrás, as agências de classificação de risco a rebaixar a nota de crédito do País, deixando-nos na marca do “penalti” com elevado grau de ameaça quando, provavelmente, até o final deste exercício perderemos nosso grau de investimento (investment grade).

O funcionamento simplificado das trajetórias dos ciclos econômicos encontra-se no primeiro quadro abaixo. Logo em seguida, quatro gráficos simbolizam a alternância de períodos de quedas e crescimento, definindo as recessões em forma de V, U, L ou W que as economias podem enfrentar.

Através da analogia comparativa na economia que enquadra as curvas deste perigoso alfabeto, relacioná-las com aspectos recessivos depende de vários fatores. Na recessão que agora atravessamos, ficamos, de antemão, afastados das curvas V e W.  Até então, nossa “cara” fica bem parecida com a curva U. Muito pior, seria a curva L.

Encaixar o Brasil na curva U é adequado, pois ela mostra uma queda significativa da atividade econômica, em um ciclo relativamente extenso de crescimento nulo, apresentando tendência negativa até alcançar o caminho da sua reabilitação.

No atual contexto, jamais poderemos nos comparar à curva L. Esta situação fica fora de cogitação, pois ela ocorre quando a economia não volta a crescer por muitos anos, caracterizando a chamada ”década perdida”. É considerada como o tipo mais cruel de recessão ou, mais apropriadamente, como depressão. Corrói a sociedade, levando-a a uma convulsão social. Nós brasileiros não merecemos desafiá-la e torcemos para ficarmos sempre distante dela.

As outras duas também não se adaptam à nossa realidade. A curva em V manifesta uma curta e aguda contração, seguida de recuperação acelerada e sustentada; já a curva W, caracterizada pela chamada double-dip (“duplo mergulho”), quando a economia entra em recessão, emerge por um curto período, apresentando relativo crescimento, mas rapidamente volta a cair na recessão.

A incontrolável irresponsabilidade e inconsequência são alguns dos atributos da seita petista, que contribuiu essencialmente para o nosso enquadramento. Tão cedo não conseguirá finalizar o imprescindível ajuste fiscal nem paralisar a temerária dinâmica da dívida e tampouco a contenção nos gastos. A intenção de economizar 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto) foi redirecionada. A nova proposta encaminhada está próxima de zero e com grandes chances de se apresentar negativa.

A inflação está nas alturas (9,56% em 12 meses e 7,63% neste ano), disseminada por toda a economia, aproximando-se rapidamente da casa dos dois dígitos. Diga-se de passagem – não está limitada apenas à revisão vigorosa das tarifas no início deste ano (combustíveis, energia, água etc).

Além disso, assombra-nos o desemprego crescente, numa velocidade alarmante maior do que previsto, a renda desabalada, contaminando as vendas das empresas e do comércio e, especialmente, a cobrança monstruosa dos impostos a fim de viabilizar o ajuste fiscal.

Muitos investimentos empresariais encontram-se interrompidos, quando deveriam compensar a ausência de demanda dos consumidores. Pergunta-se: para que investir, sem expectativa de vendas e mercado futuro?

Os investimentos no setor público ruíram e novas tesouradas continuam acontecendo, principalmente nas despesas obrigatórias. Lideranças da seita petista são os principais protagonistas, fieis parceiros em numerosos cambalachos com as maiores empreiteiras brasileiras, sendo que boa parte delas está comprometida com imorais escândalos aqui, e, também, acolá.

O Executivo está arruinado no âmbito político, pessimamente avaliado, com sua credibilidade abalada, decompondo-se a cada dia. Jaz prisioneiro predileto do Legislativo, também investigado por corrupção, sendo capaz de qualquer “armação” para livrar-se da suntuosa complicação de alguns dos envolvidos.

Turbulências econômicas fazem parte do nosso cardápio e o ambiente externo acaba beneficiando parcialmente a economia interna. O Real continuará se desvalorizando frente ao dólar, devido às incertezas políticas e econômicas; consequentemente, os produtos brasileiros se tornam mais competitivos no exterior e nossos segmentos econômicos sentem-se estimulados pelo crescimento proporcionado pelas exportações.

A participação da indústria de transformação no PIB durante a última década esteve em torno de 20% e, hoje, está próximo de 10%.  Sendo assim, desta vez, a reabilitação terá um impacto mais reduzido em relação às outras crises.

Atravessamos um ciclo recessivo com significativas consequências prejudiciais para o emprego e para a renda, o que deverá ser uma contribuição consistente para a queda da inflação. Portanto, o Banco Central, no momento que julgar apropriado, iniciará a queda gradativa dos juros (Selic), situados no patamar de 14,25% a.a., suavizando a pressão no aumento da dívida pública e os gargalos da demanda.

Indícios se fazem notar na recuperação da Europa e os EUA se consolidam no cenário internacional, independente da crise grega, que ofuscou uma sequência de notícias promissoras em ambos os lados do Atlântico Norte, relacionadas com empregabilidade e crescimento.

O agravamento no plano recessivo colabora para tornar ainda mais aflita a base governista, que apresenta, inclusive, dentro da própria seita petista, o transtorno de apoiar medidas que marcam as generosidades oficiais.

Não podemos perder as esperanças na esfera política, quando seguramente, teremos uma triunfante renovação nas próximas etapas eleitorais. Assistiremos alguns políticos serem expurgados pela Lava Jato das próximas eleições municipais de 2016 e, sobretudo, da presidencial em 2018, possivelmente a mais importante, já que poderá permitir a retomada do desenvolvimento.

Aproximamo-nos de um desfecho após treze anos de desgovernos da seita petista e os brasileiros nas ruas continuam clamando por mudanças. Realmente, no PT estão os radicais, incompetentes, ideologicamente alienados e especialmente corruptos.

“Nunca antes neste país”, o modelo econômico apoiado no consumo, na frenética expansão do crédito e nos incentivos a expensas das contas públicas, esgotou-se, deixando um rastro ilusionista e duradouro.

Infelizmente, estamos pagando um alto preço pelos erros praticados nos últimos anos por uma organização criminosa alçada ao comando da Nação, que também decidiu trocar uma matriz econômica razoavelmente bem-sucedida, por uma insensata ousadia política cujos resultados se revelam catastróficos.

(Artigos originalmente publicado em Agosto de 2015)