O Julgamento de Jesus

O Julgamento de Jesus

O julgamento de Cristo, a se fiar nos testamentos, textos tidos por sagrados pelos cristãos identifica uma série de descompassos com as decisões de hoje. Analisei os fatos no livro “O direito na Bíblia”. Ali analisei todos os capítulos da Bíblia do ângulo jurídico.

O nazareno foi preso sob mera suspeita de se rotular um rei. Traído pelo beijo de Judas (e por trinta moedas) pelo qual foi identificado como o criminoso, foi levado à presença do julgador. Caifás declinou de sua competência para julgá-lo. Perante este consagrou o direito ao silêncio (Mateus, 26,63). Foi, então, encaminhado ao governador Pilatos (Mateus, 27, 11).

Até aqui observe-se que não houve uma acusação. Pilatos realizou o gesto simbólico de lavar as mãos e afirmou ser inocente do sangue do justo (Mateus, 27, 24). A partir daí, entregou-o para que fosse crucifixado.

A acusação que foi testemunhada era de que Jesus teria dito que derribaria o templo e o construiria em três dias (Marcos, 14, 58). Diz o evangelho que era acusado de muitas coisas (Marcos, 15,3), mas o texto não diz o que. Pilatos, então, resolveu o problema fazendo a multidão escolher entre ele e Barrabás (Marcos, 15, 11).

Percebe-se, claramente, que, em primeiro lugar, não há uma acusação de um fato. Depois, há uma prisão sem qualquer formalidade. Aí surgiram algumas acusações: “perversão da nação”, “proibição de dar tributo” e “dizer-se rei” (Lucas, 23, 2). Levado a Pilatos, entendeu este que a atribuição do julgamento era de Herodes (Lucas, 23, 7) e a ele foi transferido (temos aqui um conflito de jurisdição). Após ouvi-lo, Herodes o devolveu a Pilatos.

João relata que em primeiro lugar Jesus foi levado a Anás, sogro de Caifás. Anás o manietou e o enviou a Caifás. Daí foi para Pilatos. Este o enviou a Herodes. Pilatos saiu da sala de onde deveria proferir o julgamento diversas vezes (João, 19, 4).

Não houve defesa. Simplesmente, sem qualquer acusação, salvo as mencionadas por Lucas, o réu é levado de um julgador a outro que suscitam conflito negativo de jurisdição e, sem que houvesse qualquer julgamento, Jesus é entregue para cruxificação (João, 19, 16).

Pode-se dizer que o julgamento foi popular sob forte emoção, porque havia um grupo que insistia na morte do nazareno. A população foi chamada a se manifestar e escolheu soltar Barrabás e crucificar Jesus. Sem ouvirem razões de quem quer que seja. Julgamento emotivo.

A decisão, normalmente, é dada sob o peso da razão. Ouvidos argumentos dos litigantes, analisam-se os argumentos, são sopesados, apurados os fatos e, então, os julgadores estão bem informados para proferirem uma sentença.

Como, no caso de Jesus, a emoção prevaleceu houve “o voto pela sentença de morte foi de todos” (Marcos, 14, 63/64). Pilatos bem que buscou saber os fundamentos da acusação ao indagar: “Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?” (João, 18, 29).

Ademais, Lucas relata que Pilatos indagou: “Mas que mal fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei, pois, e soltá-lo-ei” (Lucas, 23, 22). A autoridade competente não tinha em mãos qualquer acusação bem como não divisou qualquer comportamento culposo ou doloso.

Observa-se, então, que não houve juízo de condenação. Não houve acusação. Não houve defesa e o julgamento foi fundado em razões emotivas e não racionais.

O processo identifica um caminho de controvérsias. Dialógico e dialético. Confrontos de argumentos e debates de ideias. Há uma crise em seu procedimento. Sofre idas e vindas.

Se não há acusação, em casos criminais, não há processo. A defesa torna-se desnecessária porque não há ao que se contrapor. As provas são inúteis, porque não há fato a ser apurado. Inexistindo a comprovação de culpa ou dolo do réu, não há como se elaborar qualquer juízo. Sem juízo não há julgamento.

Em suma, o julgamento de Cristo foi uma fraude. Assim se fazem as coisas quando as garantias constitucionais não estão presentes e não existem poderes legítimos para assegurar a legalidade e a lisura dos procedimentos.

Assim, o nazareno foi condenado. Não remiu os pecados do mundo. Mesmo porque não houve julgamento justo.