Francisco e o Meio ambiente

Francisco e o Meio ambiente

Sem entrar no mérito da questão religiosa, na fé que cada um professa ou até no descrédito sobre a vertente espiritual que alguns entendem, “Nada deste mundo nos é indiferente”, como cita o Papa Francisco na reflexão profunda a versar sobre o cuidado com a casa comum — Mãe Terra — de todos nós, reino animal, vegetal, mineral… sob o olhar e o respeito do homem ao usar os recursos disponíveis com parcimônia, conservá-los com equilibrado consumo e preservar intocável o nível de reserva para a sobrevivência do todo.

Rememora o clamor pela paz do Papa João XXIII face ao conflito nuclear, destaca o canto de louvor de S. Francisco de Assis pela existência das flores, frutos, verduras, cita a reforma missionária em andamento e com firmeza alerta sobre a deterioração global do meio ambiente. Ressalta a contribuição dos Papas antecessores e autoridades religiosas várias, debruçadas sobre o tema na atualidade.

Aborda com serenidade e fundamento a relação entre o homem e natureza, a ambição desenfreada, egocentrismo, as ações impiedosas de políticos em especial com os mais pobres que são privados do mínimo necessário à vida, as relações de trabalho e exploração da natureza. O respeito à produção em pequena escala como geradora de emprego; trata dos cuidados com a manipulação genética e transgênicos e chama a atenção para os oligopólios na produção de sementes. Não descura com a ética quando no trata de modificações genéticas nos humanos.

O crescente consumo de drogas na sociedade rica que tem origem em regiões mais pobres onde as autoridades são facilmente corrompidas destroem famílias e degradam a natureza.

Os males das grandes cidades, o crescimento da periferia desordenada e mal assistida, que sem transporte público sacrifica o cidadão, produz intenso tráfico de automóveis, congestionamento e poluição da atmosfera; a necessidade de substituir os combustíveis fósseis e desenvolver fontes de energia renovável.

Degradação das nascentes da vida, dos rios que delas se formam e da água potável necessária ao consumo humano e acesso a todos. Vias, prédios, áreas de produção agropecuária impedindo o caminho das águas puras que a natureza produz. Áreas verdes cada vez menores. Substituição da flora natural por florestas de árvores típicas da monocultura. Exportação de matérias-primas para o mercado do Norte e degradação do ambiente no Sul. Esgotamento de recursos e prenúncios de guerra ao disputá-los.

Muito do que se observa e se condena no Brasil. Esgoto direto nos rios, Tietê, por exemplo, represas secas, volume morto que se soube existir; assoreados, sem vegetação ciliar, sem peixe, mas cheio de garrafa PET, sofás nas margens para lamentar e não para apreciar. Concreto, asfalto, torres, pouco espaço que não cabe plantar arbusto quanto mais árvore frutífera, criar galinhas, comum que foi; hoje, proibido por conta da leishmaniose. Violência, narcotráfico, desperdício de alimentos desde a produção ao consumo. Periferia, favela, ausência do Estado, falta de segurança, assistência médica,…

Em se tratando de meio ambiente, a Amazônia,a bacia fluvial do Congo, os grandes lençóis freáticos e os glaciares são citados. O desmatamento é condenado para que essas áreas não se transformem em desertos, mas também alerta sobre o interesse econômico internacional, que “a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais.”. Considera louvável que outros organismos reajam a esses desmandos, e empreguem meios legítimos de pressão para que os governos cumpram com o dever de conservar o meio ambiente e os recursos naturais, “sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais.”.

Ora, cabe ao Brasil, repelir os organismos alinhados aos interesses espúrios e, à sociedade de se manter atenta e reagir às pressões desses organismos e governos que se chocam com os objetivos nacionais, em particular quanto à integridade do território e aos recursos minerais.

O Papa se pensou, não escreveu semelhantes pensamentos: – “Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas.” (Margaret Thatcher); “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós.” (Al Gore); “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia.” (François Mitterrand); e outros sobre a internacionalização da Amazônia.

 

Artigo originalmente publicado em julho de 2015